quarta-feira, 4 de julho de 2018

CASINHA DO INTERIOR

Há poesia em todos os cômodos da casa,
Sentada no box do banheiro
Parada na pia da cozinha
Deitada no meu travesseiro
Descansando na poltrona da salinha.
Há poesia em todos os cantos da casa,
Sobre a mesa, aonde acabaram de fazer amor
E na cama, aonde acabaram de lanchar
Há anarquia e liberdade em todos os versos que voam pela casa
Alguns voam tão alto que chegam à chaminé
E,sabe como é...se enroscam nos lençóis estendidos no varal,
Depois se esparramam pelo quintal
E então sobem pra admirar a lua do telhado.
Algumas palavras andam lado a lado
E ao se esbarrarem no gramado
Derramam-se sobre a relva,estrombóticas que são
Querem sempre chamar atenção,
Dos ritmos que estão na garagem.
Quanta coragem!
Compor quadrinhas numa casa assim
Ainda se tivesse um jardim de jasmin
Mas é só uma casinha de madeira tomada de cupim...
Que tem um cheiro de poemas irresistível.

PEQUENA OBSERVAÇÃO PESSOAL SOBRE OS ARTISTAS (ESSES SERES DOCES E DESAJUSTADOS)

O artista é um cara vaidoso em sua essência.
Até quando está com a auto estima em frangalhos se acha.
Sabe que tem coisa mais importante a fazer do que ficar se preocupando com a opinião dos outros.
Então parece (ou laconicamente finge que parece) não estar nem aí.
Adule um artista e receberás seu desprezo,desafie-o com suas habilidades e ganharás um fã...ou um amigo,desses bem loucos que só usam roupa de brechó e correm bêbados aos berros pela madrugada,contagiam e infectam o ambiente com seus risinhos blazês,pintam o sete com pincéis,guitarras,máquinas de escrever ou qualquer objeto doido que esteja a mão...um crânio,uma revista Vogue,uma flauta,uma tesoura ou um giz de cera.Fazem câmaras escuras com latas de leite...
O artista nem sabe o que é e todos são, somos,estamos a um passo de sermos artistas.
Mas ser artista requer dedicação...
Basta olhar suas caras de decepção.Nunca irão se adequar,pobres diabos!
Olhares desesperados,admiração alheia e vontade de potência se perdendo nas noites por aí,
até chegarem as diatribes à sua óbra ou o que é pior,o desprezo,a indiferença,o total anonimato.
Sua arte é pra quem artista?Pra quê?
Mas a filosofia não é questão para estes tipos sociais,eles só se concentram na produção dos textos,em acordes dissonantes que caem muito bem em suas notas musicais,colagens com obscuros jornais e coreografias de dança que levem ao transe.Eles fazem seus próprios quadrinhos.
Não esperam colher os louros de sua viagem porque perderiam muito tempo se concentrando nisso e simplesmente preferem perder tempo com a ARTE,essa dama indigna e sedutora.
Minha amiga artista fez um altar com a foto do David Bowie e colocou sobre ele uma garrafa de vinho.
Me disse que a voz da Patti Smith fazendo um cover do Nirvana era o canto gregoriano da sua igreja
"Quero agradar as musas,minhas deusas"-me disse ela."Por isso ofereço à elas doses cavalares de whisky com Red Bull e cigarros Marlboro Lights que surrupio dos amigos agora que parei de fumar".
Me mostrou também seu pequeno souvenir,um botão que caiu de um casaco da Rita Lee em suspeita ocasião.
Os artistas são seres extravagantes,delirantes e excêntricos.

FLERTE NA LAPA

A suavidade da tua fala...
Uma voz soft light com um sotaque preguiçoso
Menino moço que parte pro rolê do rock,sonha que tá em Woodstock
E desfila seu jeans maneiro e surrado no front.
Que desbunde
Seu mise-en-scène tão natural,seus passos precisos na pista de dança
Um sorriso travesso de criança
E então, um beijo voluptoso de amor
Quanta ginga, imagine o sabor.
Cantando ou batendo palma
Swing e simpatia
Dança comigo até raiar o dia
Depois corre comprar um salgado de um real.
Sei que não parece normal,
Substituir palavras por onomatopéias
Nem tive meu "último dia de Paupéria",
E já busco tua foto etérea, estampada no facebook
Tão doce...cabelo ao vento.

sexta-feira, 2 de março de 2018

A escrita não passa de um antiquário de palavras
Um ossário de idéias,
O arsenal ou arquivo morto de tudo que se viveu (ou se podia ter vivido,o que é pior ainda)
Escrever é reter as bravatas na mesa do bar,
Guardar tudo para quando já estiver em casa,
E explodir sozinha entre quatro paredes.
Escrever é conter a solidão ...
Deixar esvair o sangue,
O suor,
As lagrimas.
É fugir solitaria no meio da multidão...
Sem nunca saber afinal,
Para onde se está indo.

NO AMOR E NA GUERRA

Vontade de fazer algo que eu nem sei
Tocar tarol talvez
Te amar como se fosse a primeira vez
Te ligar pra dizer nada.
Lúgubre alvorada...
Meus destroços são como a fuselagem daquele avião que o jornal mostrou ontem.
Só sei que depois de ti,perdi a guerra...
Barricadas e campanhas que nunca prosperaram
Escopetas e soldados inúteis,marchando numa terra devastada
Alta madrugada...
Na dor,todos os poetas se copiam
E isso não me enfurece, não me enternece,
Só me leva a crer,que eu nunca assinarei um Tratado de Versalhes com você.

QUARESMA

Muita gente gosta de mim porque eu escrevo.
Não porque eu seja mais ou menos bonita...ou mais ou menos velha,
Ou mais ou menos inteligente,
Mas principalmente 
Porque eu sei fazer o trocadilho na hora certa.
Às vezes pago as drogas (e as contas)
Às vezes não...mas de um modo geral sei me divertir.
Quem gosta de escrever é assim,
Vai até aonde dá
Pode até aonde chega
Às vezes pode mais ou menos,
Mas chega em casa e ainda tem retórica e folego o suficiente para dizer que foi bom.
Deu o que tinha que ter dado,
Valeu enquanto durou...
Amanhã é outro dia.
Noticias distantes poderão nos trazer outras perspectivas
Saldos bancarios nos trarão outras dores
Mas a literatura estará ali
Como um furúnculo,um enfizema que se recusa à curar,
Um oceano inteiro pra nadar.
Outra,ou talvez mais outras pra gente beber.
A vida é essa coisa louca que a gente abandona 2 da manhã no pós carnaval.
E se tudo der certo, daqui a pouco é de novo Natal...
E a gente vai vibrar,e pular,e esperar presente
Sempre presente.
Enquanto dure.
Ao menos até chegar a Páscoa.

TORMENTA

Uma sinfonia enfurecida retumba sobre o céu de Copacabana,a eterna princesinha do mar,hoje irada rainha dos raios.
Cai o sinal da Oi e com ele todas as expectativas periclitantes,os sonhozinhos medíocres,as investidas vãs...
Ainda haverão outras manhãs,depois do temporal?
Chove a cântaros enquanto luto para que não esmoreça minha criatividade
Na cidade, cinza e crua, um homem encharcado grita na rua: "É chuva,é chuva !!!"
Caem sobre a terra todas as lágrimas de um deus que talvez nem exista
E no mar,a deusa natureza arreganha os dentes e amedronta os navegantes.
Daqui do 8°andar sinto um pouco de medo da vida,nunca dos trovões,
E no fundo sei que os dois se comportam como cachorros tolos que latem, mas não mordem.