todo dia util escrevo uma oferenda para o coração
de que vale a vida sem amor?
....
sem meias palavras ou telefonemas
só encontros casuais
as pessoas e as cidades
os imóveis, meus , seus ,nossos patrimonios....
uma canção enigmática,um grito primal
uma luz no fim do tunel.
....
todos os dias eu escrevo uma oferenda para meu bem
nem sei bem
quem ele é.
quem ele foi
por uma noite.
vago,penetrante,volátil.
por um instante apenas.
........
um encontro
como do primeiro raio de sol e um planeta imenso a se chocar com o nosso
como um cigarro
voa,esfumaça,se desfaz.
....
a dança angular da abelhinha
na minha cozinha
é do tamanho exato do lado esquerdo do seu rosto
e de dois palmos seus,
diminuidos da sola do meu pé.
....
a abelha segue o seu rumo
e fica a voz da cat power
depois de zunidos e berros advindos do sepultura
e gritos e sussurros que emanaram da alcova durante uma noite inteira.
domingo, 6 de maio de 2012
sábado, 17 de março de 2012
yin yang
que a grande desolação que é estar aqui sem motivo ou saber
seja ao mesmo tempo a grande revelação tal qual a morte ou o viver
e que as duas se encaixem num chamego infinito, num eterno abraço cósmico sobre os homens.
seja ao mesmo tempo a grande revelação tal qual a morte ou o viver
e que as duas se encaixem num chamego infinito, num eterno abraço cósmico sobre os homens.
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012
Cantagalo e a cena
a vida na paris dos tropicos é uma festa
reis e rainhas
emissários navegando em zeppelins
o unico dirivel capaz de sobreviver ao brilho e glamour da corte artistica carioca
todos nós e nossos pavões e pavoas
o grande flamingo
o filão do mercado junto às promessas das artes plásticas ,a banda que vai estourar ,o escritor favorito de...
brilho brilho
pó
poeira
poeira da humanidade.
a paris dos trópicos no seculo XXI é um arraso
um escandalo enxarcado de gringos loiros e putas carentes
um abuso com pedido de pensão alimentícia
milícia?
pros lados que a gente não enxerga,vira as vezes o pescoço pra dizer que também pensa
recompensa?
a vista,o cristo, a bahia cortando a cidade sempre pulsante ao balanço das aguas, periculosa ao ranger dos dentes.
a gente ?
se cruza ou não por lá e por cá...
na pilha,na trilha,no Corte...
reis e rainhas
emissários navegando em zeppelins
o unico dirivel capaz de sobreviver ao brilho e glamour da corte artistica carioca
todos nós e nossos pavões e pavoas
o grande flamingo
o filão do mercado junto às promessas das artes plásticas ,a banda que vai estourar ,o escritor favorito de...
brilho brilho
pó
poeira
poeira da humanidade.
a paris dos trópicos no seculo XXI é um arraso
um escandalo enxarcado de gringos loiros e putas carentes
um abuso com pedido de pensão alimentícia
milícia?
pros lados que a gente não enxerga,vira as vezes o pescoço pra dizer que também pensa
recompensa?
a vista,o cristo, a bahia cortando a cidade sempre pulsante ao balanço das aguas, periculosa ao ranger dos dentes.
a gente ?
se cruza ou não por lá e por cá...
na pilha,na trilha,no Corte...
terça-feira, 7 de fevereiro de 2012
Faça-me o favor
olha todos e olha eu
assim mesmo, na primeira pessoa.
uma risada forçada na cara deles.
um vacilo,de proposito,pra avacalhar.
e pouco importa a sua opinião
eu só puxei papo.
as vezes eu me sinto livre
como num filme de artes marciais
pouco importam todas as habilidades de voces.
eu vivo espreitando o medo, a corrupção, a doença e a morte.
eu nem tô.
as vezes eu me sinto livre.
e nem me importo com os jornais
ta bem , eu sei, ta errrado
mas mesmo assim eu aproveito
a volupia do momento.
a pintura de modigliane, de veermer
as suas conversas.
mas elas não me importam
nada me importa.
tem um cigarro?
um escarro?
uma dor?
Faça-me o favor...
assim mesmo, na primeira pessoa.
uma risada forçada na cara deles.
um vacilo,de proposito,pra avacalhar.
e pouco importa a sua opinião
eu só puxei papo.
as vezes eu me sinto livre
como num filme de artes marciais
pouco importam todas as habilidades de voces.
eu vivo espreitando o medo, a corrupção, a doença e a morte.
eu nem tô.
as vezes eu me sinto livre.
e nem me importo com os jornais
ta bem , eu sei, ta errrado
mas mesmo assim eu aproveito
a volupia do momento.
a pintura de modigliane, de veermer
as suas conversas.
mas elas não me importam
nada me importa.
tem um cigarro?
um escarro?
uma dor?
Faça-me o favor...
quarta-feira, 14 de dezembro de 2011
Treinei anos e anos pra guerra.
A guerra nunca chegou.Treinei anos e anos mesmo não sendo homem tampouco tendo me alistado às forças armadas.
Esperei solenemente como esperam os candelabros trabalhados a ouro a sua vez de iluminarem as mais lugubres antes salas de castelos medievais.
Com uma satisfação oculta, quase insalubre, eu contabilizava as horas que me poriam à prova.
Ao invés disso só a mediocridade dos dias.
Um cotidiano nefasto contaminado por pequenas batalhas às quais eu me envergonhava de lutar.
Nunca compreendia exatamente de onde nascia toda aquela putaria de burocracias,injustiças e indiferenças que só se disfarçavam de felicidade quando eu me embriagava e continuava a não entender porra nenhuma tendo ainda como agio uma ressaca infernal.
Mercenários infames disfarçados de patrões, empresarios bestiais,políticos corruptos,uma corja de zumbis compradores e a mais diversa gama de falsos amores que traziam em seu cerne de tudo, menos aceitação e solidariedade.
Todo mundo quer algo para si, eu só queria uma guerra grandiosa,como os grandes combates que eu via nos filmes.Um grande conflito aonde eu poderia salvar mais do que ser salva.
Na contramão de todas as oportunidades óbvias eu continuava serena esperando um momento que definitivamente me diferenciasse dos primatas mais próximos da escala evolutiva humana...mas nada, infelizmente só os desgraçados com duvidas idiotas que nunca seriam respondidas nem pela ciencia nem pela religião ou com verdades desvairadas que traziam em si mesmas a fraudulencia das certezas.
Cansada da minha resistencia inócua à todas as coisas passei a reparar que a vida é um jogo de cartas marcadas e recorrentemente observava que aqueles que sabiam usar as mangas para esconde-las se davam melhor dos que os que jogavam limpo.Tudo isso me consumia e ainda que não me afastasse do decoro nas ações, me lançava ao marasmo absoluto das mesmas.
Passei com o tempo de uma bravura indócil para uma apatia submissa, o máximo que eu me permitia vez que outra era um cinismo incrédulo até dele mesmo.
Fingia gostar de ir à festas, fingia me aprimorar com estudos e lições, fingia ser boa e as vezes fingia ser má, para que não me extorquissem descaradamente o que me restava de dignidade.
Até amar eu fingia .Amar eu fingia para mim mesma.
A guerra nunca chegou.Treinei anos e anos mesmo não sendo homem tampouco tendo me alistado às forças armadas.
Esperei solenemente como esperam os candelabros trabalhados a ouro a sua vez de iluminarem as mais lugubres antes salas de castelos medievais.
Com uma satisfação oculta, quase insalubre, eu contabilizava as horas que me poriam à prova.
Ao invés disso só a mediocridade dos dias.
Um cotidiano nefasto contaminado por pequenas batalhas às quais eu me envergonhava de lutar.
Nunca compreendia exatamente de onde nascia toda aquela putaria de burocracias,injustiças e indiferenças que só se disfarçavam de felicidade quando eu me embriagava e continuava a não entender porra nenhuma tendo ainda como agio uma ressaca infernal.
Mercenários infames disfarçados de patrões, empresarios bestiais,políticos corruptos,uma corja de zumbis compradores e a mais diversa gama de falsos amores que traziam em seu cerne de tudo, menos aceitação e solidariedade.
Todo mundo quer algo para si, eu só queria uma guerra grandiosa,como os grandes combates que eu via nos filmes.Um grande conflito aonde eu poderia salvar mais do que ser salva.
Na contramão de todas as oportunidades óbvias eu continuava serena esperando um momento que definitivamente me diferenciasse dos primatas mais próximos da escala evolutiva humana...mas nada, infelizmente só os desgraçados com duvidas idiotas que nunca seriam respondidas nem pela ciencia nem pela religião ou com verdades desvairadas que traziam em si mesmas a fraudulencia das certezas.
Cansada da minha resistencia inócua à todas as coisas passei a reparar que a vida é um jogo de cartas marcadas e recorrentemente observava que aqueles que sabiam usar as mangas para esconde-las se davam melhor dos que os que jogavam limpo.Tudo isso me consumia e ainda que não me afastasse do decoro nas ações, me lançava ao marasmo absoluto das mesmas.
Passei com o tempo de uma bravura indócil para uma apatia submissa, o máximo que eu me permitia vez que outra era um cinismo incrédulo até dele mesmo.
Fingia gostar de ir à festas, fingia me aprimorar com estudos e lições, fingia ser boa e as vezes fingia ser má, para que não me extorquissem descaradamente o que me restava de dignidade.
Até amar eu fingia .Amar eu fingia para mim mesma.
domingo, 11 de setembro de 2011
3x1
Anita saíra de casa cedo naquela manhã. Algo entre o primeiro estrondo de sol nascente e a buzina de ônibus.
Seguia como todos e todos os dias o seu caminho quando recebera a ligação.Vestia uma calça jeans com uma blusa comprida e esvoaçante, uma pulseira descascada e as orelhas vazias, gostaria de nunca ter furado as orelhas."Diferente agora" , pensou ela, "era não ter tatuagens. "Interrompida exatamente no nonsense pensamento, Anita recebera a ligação de Jonas.
-Oi - me diz aí, quanto tempo.
-Anita a parada é seria, vou morar no rio de janeiro e quero casar com você.
-Como é que é?
E assim num rompante de assombro e delírio, Anita pulou do ônibus e correu pelo aterro do flamengo como uma desvairada as 8 da manhã. Chegou 20 minutos atrasada no seu emprego proletário, que pagava mal mas lhe fazia bem, e perdeu o direito ao cartão refeição do mês, honraria prestada aos funcionários exemplares(funcionais?), que nunca se atrasam e nem sabem enrolar.
Sempre quisera este casamento mas o "louco do sobrado", apelido carinhoso que lhe dera Anita, só gostava de loiras e divagações. Cansara-se dele como cansara-se de Deus a mulher de Jó. E agora aquela noticia súbita, desengonçada e por que não estranha?
Durante o dia de trabalho, papéis e traças, porque só os livros são solenes (por isso trabalhava em uma livraria), Anita divagou sobre o amor, leu um pouco de Ovidio entre o fim do almoço e o começo da tarde, atendeu uma cliente niilista, o que lhe deu um sórdido prazer, e foi embora no fim do expediente despedindo-se dos clientes e colegas, decidida a aceitar o pedido.
Ao entrar no elevador do prédio o porteiro lhe chamou:
- ô dona Anita, tem um buque de flores aqui pra senhora.
Um misto de intumescimento e medo desfigurou Anita:
- Como é que é?
- Isso aí, e tem mais, o cara que trouxe tá doidão dormindo ali atrás do prédio,acho que ele tomou uns quente enquanto esperava a senhora.
Anita em pânico, partiu pela lateral do prédio pisando nos escombros da calçada em reconstrução. Lhe ocorreu no caminho que tudo era fugaz e voraz, assim como agiam os sapatos e as bicicletas sobre a pedra portuguesa agia o tempo sobre suas pálpebras.
Quando chegou aos fundos do prédio deu um grito:
- AHHHHHHHHHHH. Péricles? O que você esta fazendo aqui?
Mas Péricles não respondia e em seu silencio embriagado e profundo olhou pra ela e vomitou, agarrado a uma garrafa de cachaça barata.
Depois de um banho frio, dois cigarros e três cafés, Péricles se recompôs e deteve-se explicando-se das maneiras mais medonhas possíveis.
- Fala logo Péricles, o que vc quer? Não vai me dizer que quer casar comigo? ahahahaha
- Não, quê isso Anita...
(e um anjo mal encarado passou na sala deixando um silêncio sepulcral.)
-Na verdade não e sim...depende...
- Fala logo, homem, o que tu quer e vai embora que eu preciso dormir ... essa vida de escrava urbana acaba com o meu glamour.
-Eu quero fazer um cruzeiro com você. Os dias de dureza acabaram, Anitinha, o titio aqui apostou alto e acertou em cheio. Gastei meus últimos vinte reais na loteria, fiquei até sem cigarros por isso, mas deu certo. Eu estou rico e quero viajar com você ...vamos fazer um cruzeiro, nos divertir, curtição total, yeah!
- Mas como assim? Rico? E que historia é essa de curtição total, semana passada quando me declarei para você pela 5° vez você me disse que esse papo de amor não tá com nada.
- Tudo bem Anita, mas nós vamos como amigos, sei lá, a gente mergulha na piscina, enche a cara, toma algumas drogas e depois pensa nisso, vê qual é, sacou?
- Vê qual é? Sei...olha só gato, na verdade eu queria te dizer que eu estou NOIVA.
- Como?
- Isso aí, assinzinho como você ouviu, como Moisés ouvindo à Deus no Monte Sinai ou Arjuna recebendo instruções de Krishna em meio à guerra e destruição. Eu vou me casar com o Jonas.
- Que? O pescador? E vão morar num barco ou numa ilha?
- Escuta aqui, eu me amarro na sua, mas não precisa ficar com dor de cotovelo só porque eu vou casar.
- Eu? Fala sério? Eu não acredito no amor, isso é coisa de quem não tem mais o que fazer, os novos comunistas querendo dar o contra no axioma que eles mesmos criaram só para parecerem modernos. O amor é alienante.
- Beleza, então você que não ama e também não trabalha, por favor retire-se do meu recinto porque eu preciso dormir, ainda não ganhei na loteria.
- Tá bem...então, boa noite. E obrigada pelo café. Ah! Se quiser posso lhe emprestar algum dinheiro...amanhã.
E saiu chutando as pilastras sob a penumbra da bebedeira e da perplexidade.
CHEGADA DE JONAS
- Você já está com a voz embargada Jonas, aff! Que coisa estranha conversar com você bêbado sobre um casamento, e os convidados, e tudo mais.
- Convidados? Você falou convidados? Convidados só servem para uma coisa, ponha isso na sua cabeça: comer e beber às suas custas. Faça um pequeno churrasco para os íntimos e sinta o que são convidados quando tiverem roubado seus cds e quebrado sua privada.
- Ah. Sem convidados. Já havia imaginado. E como você pretende casar-se comigo?
- Então, pensei que podíamos falar sobre isso amanhã ou aos poucos entendeu? Mas não assim de cara, tô cansado da viagem.
- Hum, claro, claro, mas só queria te dizer que só poderemos casar depois das férias porque vou fazer um rápido cruzeiro com o Péricles.
QUÊ???????? Cruzeiro com o Péricles? AHAHAHAH. Só se for até a Bahia de Guanabara. E você vai pagar a cerveja.
- Pois pra seu governo gatinho, eu não vou pagar 1 real, e mesmo que pagasse, o Péricles ao menos não me enrola.
- Te enrola? E por que ele deveria te enrolar? Anita, mon amour, presta atenção, eu quero casar com você.
- AH, agora quer falar sobre o casamento? Poxa, era melhor deixar pra outra hora, você esta muito cansado da viagem.
O AMOR É DE NINGUéM
Nas semanas seguintes, Anita deteve-se mais do que nunca à reflexões vazias, idéias esfumaçadas, chiaroescuro em pensamentos oblíquos e desajeitados.
Nada lhe tirava da cabeça que as duas coincidências estavam intimamente ligadas, fosse por uma conjunção astral absurda e não alcançada pela ciência (assim como as grandes teogonias místicas), fosse pela conversa que havia tido com Péricles meses atrás.
Tudo corria imperfeitamente bem quando Anita resolveu-se por amar aqueles dois homens, e nada nem ninguém conseguia dissuadi-la daquela idéia fixa, quase obcecada, deste triângulo aparentemente impossível, visto que nenhum de seus escolhidos fazia a mínima questão de relacionar-se com ela em condições normais de temperatura e pressão.
Uma noite, em meio a doses cavalares de vodka, Anita soltou o verbo e confessou para Périclés:
- tenho tudo planejado.
- Como?
- A gente, digo, nós três... nossa vida no interior e os filhos e cachorros que iremos adotar.
- desculpe Anita, não estou ouvindo nada, o som tá muito alto, esta banda arrebenta, yeah!! Me dá licença, daqui a pouco eu volto, tem uma garota sorrindo pra mim na fila do banheiro feminino.
E agora aquilo? Um cruzeiro e um pedido de casamento?
Era mais do que nunca hora de agir, mas, e se "Péricles contara a Jonas e eles resolveram me pregar uma peça?", e se "fora só uma coincidência e os dois ao mesmo tempo realmente se deram conta que eu sou a mulher mais incrível que eles conhecem?". Ainda assim seria estranho, Anita conhecia o seu poder de sedução agora que era uma mulher segura, madura e sensata(??), mas sabia também que no colegial nunca fizera sucesso como Michele e Renatinha, suas colegas balizas da banda.
Precisava ainda assim descobrir o que estava por trás daquela maluquice de casamento e cruzeiro e resolveu marcar um encontro para, enfim, declarar sobriamente os seus sentimentos. Sabia de antemão que seria rechaçada, mesmo assim precisava contar definitivamente o que sentia, ainda que parecesse ridiculamente pretensiosa ou vadia (coisas que os homens necessitam pensar para sentirem-se melhor em relação às mulheres com personalidade não contemplativa).
- Péricles, Jonas...eu amo vocês. Os dois, sem tirar nem por. Sei que parece absurdo levando-se em consideração as estatísticas demográficas de gênero no país, mas ou eu fico com os dois, ou não fico com nenhum.
- Ah é? Disse Jonas de maneira descontroladamente impiedosa, - e como pretende dar conta dos dois?
-você está sendo indelicado Jonas...
- Ahaha. Indelicado? Eu estou sendo prático docinho. Quero saber até onde vai a sua loucura.
- Tá bem. Acho que podemos dividir, segunda quarta e sexta eu fico com Péricles, terça, quinta e sábado com você. No domingo faço as unhas e visito a mamãe.
- E o amor vai ser igual para os dois? Perguntou abismado Jonas.
- Epa, epa, epa. Sem essa de amor para os dois. Ou o amor é de ninguém, ou eu saio deste triângulo sem nem ter entrado, retrucou tacitamente Péricles.
Seguia como todos e todos os dias o seu caminho quando recebera a ligação.Vestia uma calça jeans com uma blusa comprida e esvoaçante, uma pulseira descascada e as orelhas vazias, gostaria de nunca ter furado as orelhas."Diferente agora" , pensou ela, "era não ter tatuagens. "Interrompida exatamente no nonsense pensamento, Anita recebera a ligação de Jonas.
-Oi - me diz aí, quanto tempo.
-Anita a parada é seria, vou morar no rio de janeiro e quero casar com você.
-Como é que é?
E assim num rompante de assombro e delírio, Anita pulou do ônibus e correu pelo aterro do flamengo como uma desvairada as 8 da manhã. Chegou 20 minutos atrasada no seu emprego proletário, que pagava mal mas lhe fazia bem, e perdeu o direito ao cartão refeição do mês, honraria prestada aos funcionários exemplares(funcionais?), que nunca se atrasam e nem sabem enrolar.
Sempre quisera este casamento mas o "louco do sobrado", apelido carinhoso que lhe dera Anita, só gostava de loiras e divagações. Cansara-se dele como cansara-se de Deus a mulher de Jó. E agora aquela noticia súbita, desengonçada e por que não estranha?
Durante o dia de trabalho, papéis e traças, porque só os livros são solenes (por isso trabalhava em uma livraria), Anita divagou sobre o amor, leu um pouco de Ovidio entre o fim do almoço e o começo da tarde, atendeu uma cliente niilista, o que lhe deu um sórdido prazer, e foi embora no fim do expediente despedindo-se dos clientes e colegas, decidida a aceitar o pedido.
Ao entrar no elevador do prédio o porteiro lhe chamou:
- ô dona Anita, tem um buque de flores aqui pra senhora.
Um misto de intumescimento e medo desfigurou Anita:
- Como é que é?
- Isso aí, e tem mais, o cara que trouxe tá doidão dormindo ali atrás do prédio,acho que ele tomou uns quente enquanto esperava a senhora.
Anita em pânico, partiu pela lateral do prédio pisando nos escombros da calçada em reconstrução. Lhe ocorreu no caminho que tudo era fugaz e voraz, assim como agiam os sapatos e as bicicletas sobre a pedra portuguesa agia o tempo sobre suas pálpebras.
Quando chegou aos fundos do prédio deu um grito:
- AHHHHHHHHHHH. Péricles? O que você esta fazendo aqui?
Mas Péricles não respondia e em seu silencio embriagado e profundo olhou pra ela e vomitou, agarrado a uma garrafa de cachaça barata.
Depois de um banho frio, dois cigarros e três cafés, Péricles se recompôs e deteve-se explicando-se das maneiras mais medonhas possíveis.
- Fala logo Péricles, o que vc quer? Não vai me dizer que quer casar comigo? ahahahaha
- Não, quê isso Anita...
(e um anjo mal encarado passou na sala deixando um silêncio sepulcral.)
-Na verdade não e sim...depende...
- Fala logo, homem, o que tu quer e vai embora que eu preciso dormir ... essa vida de escrava urbana acaba com o meu glamour.
-Eu quero fazer um cruzeiro com você. Os dias de dureza acabaram, Anitinha, o titio aqui apostou alto e acertou em cheio. Gastei meus últimos vinte reais na loteria, fiquei até sem cigarros por isso, mas deu certo. Eu estou rico e quero viajar com você ...vamos fazer um cruzeiro, nos divertir, curtição total, yeah!
- Mas como assim? Rico? E que historia é essa de curtição total, semana passada quando me declarei para você pela 5° vez você me disse que esse papo de amor não tá com nada.
- Tudo bem Anita, mas nós vamos como amigos, sei lá, a gente mergulha na piscina, enche a cara, toma algumas drogas e depois pensa nisso, vê qual é, sacou?
- Vê qual é? Sei...olha só gato, na verdade eu queria te dizer que eu estou NOIVA.
- Como?
- Isso aí, assinzinho como você ouviu, como Moisés ouvindo à Deus no Monte Sinai ou Arjuna recebendo instruções de Krishna em meio à guerra e destruição. Eu vou me casar com o Jonas.
- Que? O pescador? E vão morar num barco ou numa ilha?
- Escuta aqui, eu me amarro na sua, mas não precisa ficar com dor de cotovelo só porque eu vou casar.
- Eu? Fala sério? Eu não acredito no amor, isso é coisa de quem não tem mais o que fazer, os novos comunistas querendo dar o contra no axioma que eles mesmos criaram só para parecerem modernos. O amor é alienante.
- Beleza, então você que não ama e também não trabalha, por favor retire-se do meu recinto porque eu preciso dormir, ainda não ganhei na loteria.
- Tá bem...então, boa noite. E obrigada pelo café. Ah! Se quiser posso lhe emprestar algum dinheiro...amanhã.
E saiu chutando as pilastras sob a penumbra da bebedeira e da perplexidade.
CHEGADA DE JONAS
- Você já está com a voz embargada Jonas, aff! Que coisa estranha conversar com você bêbado sobre um casamento, e os convidados, e tudo mais.
- Convidados? Você falou convidados? Convidados só servem para uma coisa, ponha isso na sua cabeça: comer e beber às suas custas. Faça um pequeno churrasco para os íntimos e sinta o que são convidados quando tiverem roubado seus cds e quebrado sua privada.
- Ah. Sem convidados. Já havia imaginado. E como você pretende casar-se comigo?
- Então, pensei que podíamos falar sobre isso amanhã ou aos poucos entendeu? Mas não assim de cara, tô cansado da viagem.
- Hum, claro, claro, mas só queria te dizer que só poderemos casar depois das férias porque vou fazer um rápido cruzeiro com o Péricles.
QUÊ???????? Cruzeiro com o Péricles? AHAHAHAH. Só se for até a Bahia de Guanabara. E você vai pagar a cerveja.
- Pois pra seu governo gatinho, eu não vou pagar 1 real, e mesmo que pagasse, o Péricles ao menos não me enrola.
- Te enrola? E por que ele deveria te enrolar? Anita, mon amour, presta atenção, eu quero casar com você.
- AH, agora quer falar sobre o casamento? Poxa, era melhor deixar pra outra hora, você esta muito cansado da viagem.
O AMOR É DE NINGUéM
Nas semanas seguintes, Anita deteve-se mais do que nunca à reflexões vazias, idéias esfumaçadas, chiaroescuro em pensamentos oblíquos e desajeitados.
Nada lhe tirava da cabeça que as duas coincidências estavam intimamente ligadas, fosse por uma conjunção astral absurda e não alcançada pela ciência (assim como as grandes teogonias místicas), fosse pela conversa que havia tido com Péricles meses atrás.
Tudo corria imperfeitamente bem quando Anita resolveu-se por amar aqueles dois homens, e nada nem ninguém conseguia dissuadi-la daquela idéia fixa, quase obcecada, deste triângulo aparentemente impossível, visto que nenhum de seus escolhidos fazia a mínima questão de relacionar-se com ela em condições normais de temperatura e pressão.
Uma noite, em meio a doses cavalares de vodka, Anita soltou o verbo e confessou para Périclés:
- tenho tudo planejado.
- Como?
- A gente, digo, nós três... nossa vida no interior e os filhos e cachorros que iremos adotar.
- desculpe Anita, não estou ouvindo nada, o som tá muito alto, esta banda arrebenta, yeah!! Me dá licença, daqui a pouco eu volto, tem uma garota sorrindo pra mim na fila do banheiro feminino.
E agora aquilo? Um cruzeiro e um pedido de casamento?
Era mais do que nunca hora de agir, mas, e se "Péricles contara a Jonas e eles resolveram me pregar uma peça?", e se "fora só uma coincidência e os dois ao mesmo tempo realmente se deram conta que eu sou a mulher mais incrível que eles conhecem?". Ainda assim seria estranho, Anita conhecia o seu poder de sedução agora que era uma mulher segura, madura e sensata(??), mas sabia também que no colegial nunca fizera sucesso como Michele e Renatinha, suas colegas balizas da banda.
Precisava ainda assim descobrir o que estava por trás daquela maluquice de casamento e cruzeiro e resolveu marcar um encontro para, enfim, declarar sobriamente os seus sentimentos. Sabia de antemão que seria rechaçada, mesmo assim precisava contar definitivamente o que sentia, ainda que parecesse ridiculamente pretensiosa ou vadia (coisas que os homens necessitam pensar para sentirem-se melhor em relação às mulheres com personalidade não contemplativa).
- Péricles, Jonas...eu amo vocês. Os dois, sem tirar nem por. Sei que parece absurdo levando-se em consideração as estatísticas demográficas de gênero no país, mas ou eu fico com os dois, ou não fico com nenhum.
- Ah é? Disse Jonas de maneira descontroladamente impiedosa, - e como pretende dar conta dos dois?
-você está sendo indelicado Jonas...
- Ahaha. Indelicado? Eu estou sendo prático docinho. Quero saber até onde vai a sua loucura.
- Tá bem. Acho que podemos dividir, segunda quarta e sexta eu fico com Péricles, terça, quinta e sábado com você. No domingo faço as unhas e visito a mamãe.
- E o amor vai ser igual para os dois? Perguntou abismado Jonas.
- Epa, epa, epa. Sem essa de amor para os dois. Ou o amor é de ninguém, ou eu saio deste triângulo sem nem ter entrado, retrucou tacitamente Péricles.
domingo, 12 de junho de 2011
À TODOS QUE MAIS CEDO OU MAIS TARDE DESCOBREM O QUE É A DOR DE COTOVELO,E SEGUEM PROGREDINDO NO ERRO
Para o dia dos namorados
muitos beijos libidinosos e boas compras!
Para os solitarios
meu respeito e condecorações
para um monte de doentes amantes libertarios da hipermodernidade,não AMAR ou AMAR demais é um luxo...ou uma aberração.
Para o dia dos namorados
que foi ontem ou será no domingo que vem,eu dedico este poema.
muitos beijos libidinosos e boas compras!
Para os solitarios
meu respeito e condecorações
para um monte de doentes amantes libertarios da hipermodernidade,não AMAR ou AMAR demais é um luxo...ou uma aberração.
Para o dia dos namorados
que foi ontem ou será no domingo que vem,eu dedico este poema.
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